Um
dos mais belos movimentos humanos é a busca de parceria. O instinto
gregário e a bênção que é o amor levam-nos a procurar a alma gêmea. Quando
o encontro acontece, a dádiva nos parece tão poderosa quanto a fusão atômica.
Mas esse estado de deslumbramento - que tem algo de sagrado e é um privilégio
para quem o sente - só é "eterno enquanto dura", como definiu o poeta
Vinícius de Moraes. Ou, como ocorreu com Romeu e Julieta, não chega a
se transportar para o cotidiano. Claro que há casais que mantêm a chama
acesa após longa convivência, mas são exceções que confirmam a regra.
A paixão se ancora em projeções de nosso desejo de complementação. Ela
nasce no inconsciente profundo onde habita o deus Eros, cupido brincalhão
que atira setas ao acaso, formando parceiros visíveis e invisíveis. E
a mesma fusão tão buscada leva a equívocos que, mais tarde, podem pôr
fim à relação. Se o encontro foi verdadeiro, ao baixar o fogo erótico
chega a hora tão temida pelos homens de "disdiscutir a relação". Mas é
hora também de o amor prevalecer e se tornar arte. Assim como no inconsciente
os deuses estão vivos, nossas lembranças de infância também estão. Às
vezes, o homem maravilhoso por quem nos apaixonamos incorpora a figura
do pai idealizado (o parceiro invisível) que tudo supria sem nada exigir,
alimentando um desejo de dependência paradisíaco. São projeções como essa
que fazem com que, ao acabar a fase aguda da paixão, os dois se vejam
como desconhecidos partilhando a mesma cama - que nem é mais um mar de
rosas.
Em minha prática terapêutica com casais, costumo ouvir queixas do tipo
"meu marido impede meu crescimento". Nem sempre é verdade. Muitas esposas
preferem permanecer como crianças mimadas ou até escravas - papéis mais
fáceis de exercer que pagar o preço de ser responsável por si mesmas.
Como todo jogo inconsciente, este traz um ganho: ajuda a mulher a driblar
a dificuldade de ser adulta!
Já os homens confundem a esposa com a mãe - a parceira invisível. Parecem
o bebê que tiraniza os pais no cadeirão, sujando tudo, enquanto aprende
a comer. Arrogância e prepotência se mantêm num jogo de poder até que
estoure uma crise, exigindo ajuda externa. O ganho secundário é justificar
a si mesmo a incapacidade de suprir as necessidades físicas e emocionais
da mulher. Ou seja, ser adulto!
Se você se vê nessas situações, use uma arma infalível para obter uma
trégua no ringue a dois: a tolerância. Entra-se nesse território por três
passos: 1. Paciência: a ciência da paz; 2. Concentração: estar no seu
centro, olhando para dentro, mergulhado em si mesmo; 3. Disciplina: regras
que norteiam os cuidados com o amor, como respeito e responsabilidade
por quem se ama.
Sentem-se à mesa de negociação desarmados. Dispam-se de irritações e
mágoas, emprestem os olhos um do outro para ver-se através deles, pois
a tolerância pensa com objetividade e trata as emoções com humildade.
A tolerância exige fé - em si mesmo e no potencial do outro. Fé nas mudanças.
Abrir-se para o amor adulto requer coragem, capacidade de correr riscos
e disponibilidade para aceitar as decepções, pois amar significa entregar-se
sem garantias num estado de intensidade, vitalidade e doação. Só assim
você será mestre na arte de amar.
CARMINHA LEVY É ARTETERAPEUTA, PSICÓLOGA JUNGUIANA,
MESTRE XAMÂNICA, FUNDADORA E PRESIDENTE DA PAZ GÉIA, ESCOLA DE XAMANISMO.