Estilo Natural
Edição 12 - Agosto/2004
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  Um bom casamento pede a prática da tolerância
"Quando a paixão acaba, o amor se torna arte"

CARMINHA LEVY

KRIZ KNACKUm dos mais belos movimentos humanos é a busca de parceria. O instinto gregário e a bênção que é o amor levam-nos a procurar a alma gêmea. Quando o encontro acontece, a dádiva nos parece tão poderosa quanto a fusão atômica. Mas esse estado de deslumbramento - que tem algo de sagrado e é um privilégio para quem o sente - só é "eterno enquanto dura", como definiu o poeta Vinícius de Moraes. Ou, como ocorreu com Romeu e Julieta, não chega a se transportar para o cotidiano. Claro que há casais que mantêm a chama acesa após longa convivência, mas são exceções que confirmam a regra.

A paixão se ancora em projeções de nosso desejo de complementação. Ela nasce no inconsciente profundo onde habita o deus Eros, cupido brincalhão que atira setas ao acaso, formando parceiros visíveis e invisíveis. E a mesma fusão tão buscada leva a equívocos que, mais tarde, podem pôr fim à relação. Se o encontro foi verdadeiro, ao baixar o fogo erótico chega a hora tão temida pelos homens de "disdiscutir a relação". Mas é hora também de o amor prevalecer e se tornar arte. Assim como no inconsciente os deuses estão vivos, nossas lembranças de infância também estão. Às vezes, o homem maravilhoso por quem nos apaixonamos incorpora a figura do pai idealizado (o parceiro invisível) que tudo supria sem nada exigir, alimentando um desejo de dependência paradisíaco. São projeções como essa que fazem com que, ao acabar a fase aguda da paixão, os dois se vejam como desconhecidos partilhando a mesma cama - que nem é mais um mar de rosas.

Em minha prática terapêutica com casais, costumo ouvir queixas do tipo "meu marido impede meu crescimento". Nem sempre é verdade. Muitas esposas preferem permanecer como crianças mimadas ou até escravas - papéis mais fáceis de exercer que pagar o preço de ser responsável por si mesmas. Como todo jogo inconsciente, este traz um ganho: ajuda a mulher a driblar a dificuldade de ser adulta!

Já os homens confundem a esposa com a mãe - a parceira invisível. Parecem o bebê que tiraniza os pais no cadeirão, sujando tudo, enquanto aprende a comer. Arrogância e prepotência se mantêm num jogo de poder até que estoure uma crise, exigindo ajuda externa. O ganho secundário é justificar a si mesmo a incapacidade de suprir as necessidades físicas e emocionais da mulher. Ou seja, ser adulto!

Se você se vê nessas situações, use uma arma infalível para obter uma trégua no ringue a dois: a tolerância. Entra-se nesse território por três passos: 1. Paciência: a ciência da paz; 2. Concentração: estar no seu centro, olhando para dentro, mergulhado em si mesmo; 3. Disciplina: regras que norteiam os cuidados com o amor, como respeito e responsabilidade por quem se ama.

Sentem-se à mesa de negociação desarmados. Dispam-se de irritações e mágoas, emprestem os olhos um do outro para ver-se através deles, pois a tolerância pensa com objetividade e trata as emoções com humildade. A tolerância exige fé - em si mesmo e no potencial do outro. Fé nas mudanças. Abrir-se para o amor adulto requer coragem, capacidade de correr riscos e disponibilidade para aceitar as decepções, pois amar significa entregar-se sem garantias num estado de intensidade, vitalidade e doação. Só assim você será mestre na arte de amar.

CARMINHA LEVY É ARTETERAPEUTA, PSICÓLOGA JUNGUIANA, MESTRE XAMÂNICA, FUNDADORA E PRESIDENTE DA PAZ GÉIA, ESCOLA DE XAMANISMO.

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