Não
há pai e mãe que não se emocionem
ao relembrar o célebre poema do escritor libanês Gibran Kalil Gibran (1883-1931):
"Vossos filhos não são vossos filhos/ Eles vêm através de vós, mas
não vos pertencem"... Poucos, porém, põem em prática essa sabedoria,
pois, além de sentirem os filhos como propriedade deles, ainda os impedem
de buscar sua real forma de ser - sua identidade.
Vamos ver como tudo começa. Todo filho deveria ser fruto do amor, certo?
Se fosse assim sempre, todos os percalços da existência seriam aceitos
por nós como alavancas para a luta, uma vez que quem é amado acredita
que jamais será abandonado pela sorte. Infelizmente, essa situação ideal
nem sempre acontece. São comuns as gestações regidas por medos, inseguranças
e até violência doméstica, o que pode resultar em crianças com um déficit
de amor desde o berço.
Mas esses são casos extremos. Vamos falar do comportamento da maioria.
Chega a hora do nascimento - menos intrigante desde a invenção do ultra-som.
Já sabemos se é menina ou menino, rosa ou azul... Começa então o segundo
passo no caminho da individualidade: que nome dar ao bebê?
Vamos juntar nossos nomes? Que tal Zulotávia - de Zulmira e Otávio? Além
de ser a última na lista de chamada, a garota será motivo de gozação da
classe. Ou quem sabe Flávio Florenço, como o avô, que era doutor? Veja
só a armadilha: o filho já nasce com um mandato a cumprir, com a obrigação
de atender às expectativas dos pais e não às dele. "Vai ser um grande
médico", "Vai ter de estudar muito." Brincar? Só depois do inglês, judô,
natação, aula de arte, circo... Pois terá de se preparar para ser vencedor,
rico, popular com as mulheres, extrovertido, seguir a onda, ficar famoso.
E, em muitos casos, se ele for introvertido, tiver um universo interior
rico, povoado de sonhos e fantasias, será rotulado de criança-problema.
"Dê
a seu filho um grande presente: a identidade" |
Terá sorte se, por essa razão, for levado a um terapeuta amoroso e competente,
que ajude a família inteira a decifrar o menino-enigma. Convém lembrar
que nossa identidade é formada pelos conteúdos internos e pelo meio ambiente.
A família, em primeiro lugar, vai ensinar à criança quem ela é, mas a
sociedade também é determinante. Pais que se pautam pelo clássico "o que
os outros vão dizer?", ou que pretendem que o filho seja uma xerox do
modelito da moda, correm o risco de criar uma geração de barbies
e pit bulls, artificiais e violentos, fiéis a uma estética pré-fabricada.
Portanto, o maior presente que podemos dar a um filho é a identidade.
Para isso, é preciso ter em mente que aquilo que é bom para ele será revelado
por suas tendências e talentos. Amar é permitir que a criança seja ela
mesma, oferecendo-lhe limites adequados à idade, autoridade amorosa e
firme, além de segurança emocional, física e psicológica que lhe garanta
que, haja o que houver, ela conta com o amor incondicional dos pais.
Respeitar seu filho é não exigir que ele se molde aos seus projetos,
mas sim dar-lhe força para ser o herói dele mesmo, descoberto graças ao
amor que recebeu do pai e da mãe e que o levará à essência do seu ser:
a sua real identidade.
Carminha Levy é arteterapeuta, psicóloga junguiana,
mestre xamânica, fundadora e presidente da paz géia, escola de xamanismo.