Sabemos
que tudo na vida é incerto - a começar pelo tempo aqui
na capital paulista, onde no mesmo dia temos as quatro estações do ano.
Só há uma exceção a essa regra: as relações consangüíneas. Pai será sempre
pai, mãe idem. Ex-esposa e ex-marido continuam sendo mãe e pai de seus
filhos. Mesmo os abandonados, que não conhecem o pai, carregam nos gens
o DNA dele. Partindo desse princípio, vamos fazer uma leitura das relações
familiares despida do glamour com que se diz "mãe só tem uma" e encarar
a pouca seriedade com que muitos casais separados se relacionam com os
filhos.
Sabemos que o amor de mãe é o mais forte sentimento humano. O seio que
nos nutriu, o ventre que se fez carne, a relação única e prazerosa de
estar num útero protegido leva o ser humano a pôr em plano secundário
o papel do pai e a esquecer que, sem o seu sêmen, a vida não teria ocorrido.
Mas a figura paterna é também arquetípica.
Temos de fazer justiça e trazer à luz da consciência coletiva que, cada
vez mais, o pai ganha espaço na educação amorosa dos filhos. Aliás, nem
sempre o amor de mãe é incondicional. Há mulheres, tanto ricas como pobres,
que rejeitam o filho desde a barriga, seja por temer deformar o corpo,
seja por ser ele mais uma boca para alimentar.
Com o pai também pode ocorrer a rejeição - às vezes, uma noite de sexo
desavisado gera um filho que não faz parte do projeto de vida dele; não
há laços que o prendam à mulher, que pode até tê-lo "usado" para concretizar
o desejo de ser mãe. Seria de supor que tais crianças também rejeitassem
a idéia de mãe ou pai. Não é o que acontece. No mais profundo "eu" de
todas elas há um desejo, uma nostalgia pela mãe ou pelo pai. A não ser
que tenham a sorte de ser muito amadas por pais substitutos, a ferida
nunca será curada.
"Existe
um ex-marido, mas nunca um ex-pai ou ex-mãe" |
Esse anseio filial sofre um profundo golpe quando os pais se separam.
O ideal seria que eles continuassem sempre amigos. Mas isso é uma exceção.
Em geral, vemos pais separados usarem os filhos para obter poder um sobre
o outro. Cria-se, assim, uma geração de adultos imaturos, que ou "só amam
mamãe" ou "só amam papai". A situação se reflete, por exemplo, em suas
amizades, que vivem sendo trocadas. Como esses filhos não aceitam no outro
a parte do pai ou da mãe internalizadas, não percebem que o amor é um
só - e pode ser recebido e dado de maneira fluida e poderosa.
Tudo isso precisa ser levado em conta por casais que se separam e por
filhos que se sentem rejeitados pelos pais - e vice-versa. Tomemos um
caso corriqueiro: o de filhos que, já crescidos, brigam com os pais e
os abandonam (imaginando que eles é que foram abandonados na infância).
Mais tarde, em geral na meia-idade, quando já têm por sua vez os próprios
filhos adolescentes, sentem nostalgia pelos pais e desejo de perdoá-los,
de ser tolerantes com suas "tiranias".
Se é esse o seu caso, não perca tempo: restaure esse pai, essa mãe no
seu coração. Se ainda puder, vá vê-los, reencontrá- los à luz das precariedades
humanas - graças às quais não somos perfeitos, mas inteiros.
CARMINHA LEVY É ARTETERAPEUTA, PSICÓLOGA JUNGUIANA,
MESTRE XAMÂNICA, FUNDADORA E PRESIDENTE DA PAZ GÉIA, ESCOLA DE XAMANISMO.