Estilo Natural
Edição 16 - Dezembro/2004
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  Adoção, um caso de amor

CARMINHA LEVY
CARMINHALEVY@UOL.COM.BR

FOTO: KRIZ KNACK
O sentimento de paternidade é algo tão forte que está presente mesmo em pessoas que optaram pelo celibato da vida religiosa, e que chamam seus adeptos de filhos. Na tradição afro, por exemplo, esses "pais" se intitulam Babá (pai) ou Iyá (mãe).

Em geral, a atração amorosa leva o casal a se casar. Quando o filho chega, forma-se a trindade, arquétipo da criação, presente desde os primórdios da Humanidade. O anseio pelos filhos é ancorado no desejo de ter uma descendência, uma continuidade de vida. Esse sentimento tão forte pode tornar-se obsessivo quando a maternidade, após várias tentativas, não acontece. Tem início então um longo caminho, que pode culminar na adoção.

É a esses casais que me dirijo na tentativa de clarear os sentimentos envolvidos no processo, a fim de que a adoção se torne um verdadeiro ato de amor. Vejamos: se vocês querem adotar apenas para preencher um vazio, solucionar o que consideram erradamente uma falha, uma incompletude, então essa criança não estará sendo gestada nos seus corações, como seria um "filho da barriga".

É verdade que há quem engravide para tentar salvar um casamento, o que é um desastre para pais e filho - essa também não é uma gravidez de coração. Mas a regra é que se engravida por amor, desejando que o filho seja uma continuidade de ambos: olhos da mãe, porte do pai... E se ele for diferente, ninguém pensa em rejeitar uma criança porque ela nasceu com o nariz chato do avô. É uma gravidez com aceitação incondicional do filho que virá.

No caso da adoção "preenche buraco", as condições se sobrepõem: exige-se que seja menina, branca, recém-nascida, loira, de olhos azuis, sem defeitos. O retrato do filho idealizado. Outro equívoco é acreditar que a adoção faz o casal relaxar e conceber um filho biológico. Isso nem sempre acontece.

Se vocês têm o coração aberto e a coragem de adotar incondicionalmente qualquer criança, aceitando a que vier - não importa se gêmeos, se crianças grandes, de outra raça etc -, estarão parindo filhos que realmente foram gestados no coração.

"pais do coração aceitam o filho incondicionalmente"

Tal gestação deve passar pelo crivo da responsabilidade que os pais assumem. Mesmo que sejam bebês, essas crianças chegam com o abandono na alma, pois já sofreram uma rejeição básica - a da mãe biológica. No início, raiva e agressividade talvez possam falar mais alto do que o amor transbordante com que vocês as acolhem.

Mas se a adoção partir de um ato de amor, todas essas arestas serão aparadas. Certas regras morais e éticas devem ser obedecidas pelo casal. A primeira é a verdade: jamais esconder do filho sua condição de adotado. Do contrário, no dia em que ele souber, dificilmente perdoará os pais, sem contar que perderá a confiança no ser humano.

Recomendo ainda que o casal se prepare com um terapeuta especializado, que irá ajudá-lo a refletir sobre possíveis percalços da adoção. Certamente pequenos perto da felicidade de uma mãe realizada: "Meus filhos adotivos me fizeram entrar no rol das pessoas normais", diz ela. "Deixei de ser um ET no mundo da maternidade. Minha descendência está garantida. Não passarei pela vida em branco."

CARMINHA LEVY É ARTETERAPEUTA, PSICÓLOGA JUNGUIANA, MESTRE XAMÂNICA, FUNDADORA E PRESIDENTE DA PAZ GÉIA, ESCOLA DE XAMANISMO.

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