Estilo Natural
Edição 17 - Janeiro/2005
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  Férias conjugais
"Para se redescobrirem, cada um deve se cultivar"

CARMINHA LEVY I CARMINHALEVY@UOL.COM.BR

Quando disse que iria tratar deste assunto, meus amigos perguntaram, sorrindo com malícia: "Com direito a namorado?". A reação mostra o quanto se associam "férias conjugais" a aventuras, troca de parceiros e amores novos, tudo liberado pelo cônjuge. Mas não é disso que vamos falar, e sim da profilática separação temporária que pode restaurar os vínculos entre dois adultos maduros.

O Dhalai Lama recomenda só escolher para casar alguém com quem se possa conversar. Ele está certo. Quando a paixão acaba, e se transforma em amor, os casais estão envolvidos com filhos e carreira. Mas um dia os compromissos terminam e eles poderão usufruir dessa dádiva: a capacidade de trocar idéias. Além de ser um dom, conversar materializa a cumplicidade que conduziu à vida a dois.

Como é triste ver, num restaurante, um casal mais velho fazendo a refeição em silêncio, ou cada um falando em seu celular - solidão a dois -, com expressão ressentida e que sugere ausência de boas memórias. Para evitar esse futuro nebuloso, aconselho os casais a se redescobrir - para isso, cada um deve cultivar a si mesmo. É o que proponho como férias conjugais: descansar um do outro, da rotina, da intolerância com as miudezas, olhando o mundo com novos olhos. Assim como se prepara o corpo para uma longevidade feliz, um bom casamento deve passar por esses momentos de treinamento psíquico.

Nessas merecidas férias, você poderá ser você mesma por um tempo definido, sem solicitações à mãe (ou pai), ao profissional, etc... Abra-se para os riscos fazendo uma viagem inusitada. Nada de ir para a casa da mamãe! A finalidade é refletir sobre seus talentos, sua criatividade. A maior descoberta poderá ser em relação àquele companheiro que, no corre-corre diário, não vê sua roupa nova, não se interessa pela sua carreira. Conforme você for se valorizando, vai constatar que não precisa dele para formar sua auto-imagem. Você apenas É.

Quando os véus que encobrem as qualidades desse monótono marido caírem, você saberá onde se escondeu o seu herói - e aí é possível perdoar até as toalhas molhadas, a bagunça, a falta de atenção. Para o homem, as férias conjugais têm outro tempero. Ele se torna adolescente, só pensa em "aprontar", quebrar regras. É como um passarinho que sai da gaiola, correndo o risco de não sobreviver à liberdade. Não que nós, mulheres, não façamos "molecagens", mas não é com tanto alarde e brilho. Mas esse sopro de liberdade também o faz ver o que deixou para trás, a mulher, os filhos, o trabalho. Quando aprofundado, o sentimento traz a nostalgia da volta ao início do casamento - e o homem é capaz de sentir o verdadeiro valor do amor conjugal.

E se nas férias "pintar um clima" com outro alguém, e se vocês viverem um romance, será a comprovação de que o amor já tinha ido embora. Nada pior para um casal do que viver um casamento de fachada, do qual os filhos são as grandes vítimas. E as férias conjugais terão servido ao seu propósito: trazer o momento da verdade, que tanto pode ser o de que o amor acabou como o de que prevaleceu o despertar dos amores amortecidos, o que dará um novo sentido à vida a dois.

CARMINHA LEVY É ARTETERAPEUTA, PSICÓLOGA JUNGUIANA, MESTRE XAMÂNICA, FUNDADORA E PRESIDENTE DA PAZ GÉIA, ESCOLA DE XAMANISMO.

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