Quando disse que iria tratar deste assunto, meus amigos perguntaram,
sorrindo com malícia: "Com direito a namorado?". A reação mostra o quanto
se associam "férias conjugais" a aventuras, troca de parceiros e amores
novos, tudo liberado pelo cônjuge. Mas não é disso que vamos falar, e
sim da profilática separação temporária que pode restaurar os vínculos
entre dois adultos maduros.
O Dhalai Lama recomenda só escolher para casar alguém com quem se possa
conversar. Ele está certo. Quando a paixão acaba, e se transforma em amor,
os casais estão envolvidos com filhos e carreira. Mas um dia os compromissos
terminam e eles poderão usufruir dessa dádiva: a capacidade de trocar
idéias. Além de ser um dom, conversar materializa a cumplicidade que conduziu
à vida a dois.
Como é triste ver, num restaurante, um casal mais velho fazendo a refeição
em silêncio, ou cada um falando em seu celular - solidão a dois -, com
expressão ressentida e que sugere ausência de boas memórias. Para evitar
esse futuro nebuloso, aconselho os casais a se redescobrir - para isso,
cada um deve cultivar a si mesmo. É o que proponho como férias conjugais:
descansar um do outro, da rotina, da intolerância com as miudezas, olhando
o mundo com novos olhos. Assim como se prepara o corpo para uma longevidade
feliz, um bom casamento deve passar por esses momentos de treinamento
psíquico.
Nessas merecidas férias, você poderá ser você mesma por um tempo definido,
sem solicitações à mãe (ou pai), ao profissional, etc... Abra-se para
os riscos fazendo uma viagem inusitada. Nada de ir para a casa da mamãe!
A finalidade é refletir sobre seus talentos, sua criatividade. A maior
descoberta poderá ser em relação àquele companheiro que, no corre-corre
diário, não vê sua roupa nova, não se interessa pela sua carreira. Conforme
você for se valorizando, vai constatar que não precisa dele para formar
sua auto-imagem. Você apenas É.
Quando os véus que encobrem as qualidades desse monótono marido caírem,
você saberá onde se escondeu o seu herói - e aí é possível perdoar até
as toalhas molhadas, a bagunça, a falta de atenção. Para o homem, as férias
conjugais têm outro tempero. Ele se torna adolescente, só pensa em "aprontar",
quebrar regras. É como um passarinho que sai da gaiola, correndo o risco
de não sobreviver à liberdade. Não que nós, mulheres, não façamos "molecagens",
mas não é com tanto alarde e brilho. Mas esse sopro de liberdade também
o faz ver o que deixou para trás, a mulher, os filhos, o trabalho. Quando
aprofundado, o sentimento traz a nostalgia da volta ao início do casamento
- e o homem é capaz de sentir o verdadeiro valor do amor conjugal.
E se nas férias "pintar um clima" com outro alguém, e se vocês viverem
um romance, será a comprovação de que o amor já tinha ido embora. Nada
pior para um casal do que viver um casamento de fachada, do qual os filhos
são as grandes vítimas. E as férias conjugais terão servido ao seu propósito:
trazer o momento da verdade, que tanto pode ser o de que o amor acabou
como o de que prevaleceu o despertar dos amores amortecidos, o que dará
um novo sentido à vida a dois.
CARMINHA
LEVY É ARTETERAPEUTA, PSICÓLOGA JUNGUIANA, MESTRE XAMÂNICA, FUNDADORA
E PRESIDENTE DA PAZ GÉIA, ESCOLA DE XAMANISMO. |