você consegue enxergar
os seres invisíveis? Não se trata dos amigos imaginários que algumas crianças
costumam criar, e com quem "conversam" e até "brincam". Estou me referindo
a outros seres invisíveis. Aqueles que foram objeto da pesquisa de um
mestrando de sociologia numa universidade paulista. Durante seis meses,
o estudante vestiu-se de gari e limpou os pátios da faculdade, observando
o quanto a função o tornava invisível, como se ele fosse parte da paisagem.
Ninguém lhe dirigiu um olhar amistoso ou mesmo indiferente. Por isso ele
concluiu em sua dissertação que pessoas que realizam trabalhos humildes,
sejam quais forem, simplesmente deixam de existir aos olhos dos outros.
Ter
olhos para o outro talvez seja o caminho mais rápido em direção
a uma nova humanidade" |
Tal conclusão levou-me a algumas reflexões. Creio que elas cabem nesta
coluna, pois é no seio da família onde floresce o olhar que percebe a
existência do outro. Sobretudo do outro mais humilde, que desempenha papéis
indispensáveis à coletividade e, em geral, não é reconhecido. Tomemos
como exemplo o lixeiro, que exerce uma função de utilidade pública. Já
pensou o que aconteceria a uma cidade se o lixo não fosse recolhido? Entretanto,
é comum ouvir do pai cujo filho não quer estudar: "Desse jeito, você só
poderá ser lixeiro". É com frases preconceituosas como essa que se formam
os seres invisíveis, deixando a humanidade cada vez mais desumana e insensível.
Perceber o outro é uma arte. Só quando o indivíduo constata que ele não
é o umbigo do mundo, que necessita dos demais, desenvolve-se o ego que
o fará caminhar na direção altruísta de valorizar o outro, respeitando
sua dignidade e reconhecendo seu papel na sociedade. Obviamente, essa
conduta só será estabelecida pelo exemplo dos pais, da escola e do intercâmbio
entre os amiguinhos. Reconhecer com um "bom dia", "obrigado", uma palavrinha
ou um sorriso quem nos atende, principalmente os empregados domésticos,
é uma forma de tornar a vida dessas pessoas mais leve. Às vezes, após
um dia cansativo de trabalho, esse ser invisível recebe o cumprimento
como um flash que, por segundos, ilumina sua vida.
Ver o outro, dar corpo aos seres invisíveis, será também um caminho de
paz e de concórdia, pois uma das causas da violência é o não reconhecimento
dos direitos alheios. Tendo olhos para ver, uma chama se acenderá nos
corações dos que estão empenhados na força da transformação, trazendo
uma nova esperança para a humanidade.
CARMINHA
LEVY É ARTETERAPEUTA, PSICÓLOGA JUNGUIANA, MESTRE XAMÂNICA, FUNDADORA
E PRESIDENTE DA PAZ GÉIA, ESCOLA DE XAMANISMO. |