
QUANDO ENCONTRAMOS ALGUÉM conhecido, vamos logo dizendo: "olá, tudo bem?" A resposta, invariavelmente é: "tudo bem, e você?" Repare que, ao longo do dia, esse diálogo de elevador se repete dezenas de vezes. Embora pareça não dizer nada, ele revela um comportamento que aprendemos na infância e que nos acompanha por toda a vida: o de esconder os sentimentos em frases feitas e ações mecânicas. Imagine, por exemplo, se nosso interlocutor levasse a pergunta "tudo bem?" ao pé da letra e aproveitasse a deixa para contar todos os seus problemas. Muito provavelmente ficaríamos sem reação e com a impressão de que a pessoa não é muito normal. Esse estranhamento acontece porque desde pequenos aprendemos que não é educado dizer o que sentimos.
Quando reprimimos nossas emoções, ficamos como uma panela de pressão prestes a explodir. E o pior é que a explosão quase sempre atinge o alvo errado
Com o tempo, disfarçar as emoções passa a ser algo corriqueiro e até necessário para nossa aceitação social. No entanto, esse falso contentamento não vai durar para sempre. Especialmente se nos acostumarmos a "engolir sapos" com freqüência. "Quando reprimimos nossas emoções, sem ter uma válvula de escape, ficamos como uma panela de pressão prestes a explodir", explica Nivaldo Scrivano, especialista em desenvolvimento de talentos humanos. E o pior é que essa explosão quase sempre atinge quem não tem nada com isso. Para o especialista,
engana-se quem pensa que consegue
sempre disfarçar o que sente. "Nos momentos de raiva, a reação é quase automática, não dá tempo de controlar", lembra Nivaldo.
O caminho para evitar danos maiores, portanto, é reconhecer o sentimento e procurar expressá-lo da melhor forma possível. E uma boa maneira de fazer isso é não tentar transferir para o outro a responsabilidade pelo que se sente. Por exemplo: se você ficou chateada com o comentário de um colega de trabalho, em vez de chamá-lo de insensível, experimente dizer que se sentiu ofendida com o que ele disse. Certamente, em vez de começar uma briga, você será surpreendida por um pedido de desculpas. "Quando expressamos claramente nossos sentimentos, diminuímos as chances de conflito", afirma Scrivano. Veja como essa regra simples pode tornar as relações pessoais muito mais saudáveis:
Festa do escritório
É aniversário do colega de trabalho do seu marido. No ano passado você foi e, por não se sentir à vontade, acabou ficando emburrada. Seu marido ficou frustrado e vocês discutiram.
REAÇÃO NEGATIVA desta vez você se recusa a ir, sem dar explicações.
REAÇÃO POSITIVA explica que não se sente à vontade nesse tipo de encontro, pergunta se é realmente importante que ele vá e se faz mesmo questão da sua companhia. Caso ambas as respostas sejam positivas, compareça, fazendo o possível para ser simpática.
EFEITO PROVÁVEL nas próximas vezes, ele já saberá sua opinião e terá mais critério ao aceitar esse tipo de convite.
Docinhos da vovó
Seu filho costuma sair da escola e ir para a casa da sua sogra todos os dias, enquanto a espera chegar do trabalho. Nesse meio tem po, a vovó aproveita para enchê-lo de guloseimas. Depois dos quitutes, ele nunca quer jantar.
REAÇÃO NEGATIVA chateada, você briga com sua sogra dizendo que ela "estraga" a criança.
REAÇÃO POSITIVA elogia os doces e afirma que seu filho os aprecia tanto que prefere não jantar depois de comê-los. Pede então para levá-los para serem comidos como sobremesa.
EFEITO PROVÁVEL a vovó passará a embalar os doces para viagem.
Vizinha barulhenta
Todos os dias você acorda com uma música muito alta, vindo da casa da vizinha. Nas primeiras vezes você releva, afinal não a conhece pessoalmente. Após uma semana, a paciência já não é a mesma.
REAÇÃO NEGATIVA você pega o interfone e reclama para o porteiro que a vizinha é insuportável, criando uma situação delicada no prédio.
REAÇÃO POSITIVA no outro dia pela manhã, você toca a campainha da vizinha, levando um bolo, apresenta-se e explica que tem tido problemas para dormir por causa do barulho.
EFEITO PROVÁVEL nos dias seguintes ela reduzirá o volume da música.
Comida japonesa
É dia do seu aniversário e seu namorado promete levá-la para jantar. Quando o carro pára em frente ao restaurante você percebe que a especialidade da casa é comida japonesa, que você não gosta.
REAÇÃO NEGATIVA para agradá-lo, você omite seu descontentamento e tem o pior jantar da sua vida.
REAÇÃO POSITIVA você agradece o carinho e explica que não come esse tipo de comida, sugerindo um restaurante da sua preferência.
EFEITO PROVÁVEL nos próximos jantares, essa opção será descartada.