Estilo Natural
Edição 24 - Setembro/2005
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  Qual é a sua trilha?
Nada como a música para dar o tom certo às nossas experiências, sejam graves sejam agudas. Embarque nesta viagem biográfica

POR FRED ITIOKA*

FOTOS: DIGITALVISION/KEYDISC E TÂNIA LUMENA
EXAGERADO... LEMBRA DESSA MÚSICA? Nunca me senti tão bem descrito e representado por uma letra como acontecia com essa, de autoria do poeta Cazuza. Sempre fui compulsivo, ansioso, sedento por informação. Não que me orgulhe destas características, que são uma verdadeira Festa de Babette para qualquer terapeuta, mas quando o assunto era música, uma força invisível me levava às prateleiras de CDs e, claro, aos céus. No meio ambiente musical, meu instinto era guiado pela curiosidade. A famosa paciência oriental - que eu duvidava ter - emergia das minhas profundezas: era capaz de permanecer horas pesquisando, ouvindo e até adquirindo dezenas de títulos inimagináveis, como trilhas sonoras de filmes que raramente seriam exibidas em condições normais de sanidade cultural.

Confesso que a minha vaidade pode ter me levado a estes atos. Afinal, um orgulhoso colecionador de discos, fitas K7 e CDs sempre quer exibir sua mais nova e exótica aquisição. O ritmo frenético desta paixão fastforward pela música mudou quando uma separação conjugal me tomou de surpresa. De um dia para o outro, minha vida perdeu a cor. E a sonoridade do meu cotidiano - antes apoteótica e cheia de agudos - tornou-se grave. O que se sequal guiu foi um estado de depressão e falta de estímulos para olhar adiante. Andava pela casa, agora vazia como minha alma, e tropeçava em CDs.

"De um dia para o outro, minha vida perdeu a cor. E a sonoridade do meu cotidiano - antes apoteótica e cheia de agudos - tornou-se grave"

Muitos deles, antes objetos de desejo, agora eram apenas objetos. Alguns obsoletos, nunca tinham sido ouvidos com a devida atenção. Cansado da letargia física e espiritual, decidi abrir as janelas e o coração e iniciar um lento, cansativo e doloroso - porém necessário - processo de limpeza.
Objetivo número 1: rever minha vida e meus atos ao longo dos anos.
Objetivo número 2: uma limpeza literal nos guarda-roupas, caixas e entulhos acumulados em toda uma existência.

A estante nababesca de CDs foi o primeiro alvo e, surpreendentemente, a mais longa sessão de terapia. Ao me desvencilhar de tantos artistas e grupos que nada me diziam, percebi que meu exagero impulsivo-consumista escondia uma insatisfação, um enorme vazio.

E que minha famosa paixão pela música tinha se tornado algo burocrático, medido por quantidade, não por qualidade. Liguei o som para a faxina e descobri in loco o que os musicoterapeutas indicam: música como amiga, parceira e confidente, como testemunha da minha história. Terminada esta fase, deixei de lado a letra de Exagerado e pedi licença novamente ao mestre Cazuza para usar uma outra canção: Faz parte do meu show. E tem sido assim desde então. PS: A estante, alguém lembra dela? Ficou mais leve, mais simpática e agora com espaço para flores e novidades. E os CDs, renegados e doados, com certeza devem estar fazendo a alegria de quem os recebeu.

Faz parte do meu show
O tempo não pára Cazuza ao Vivo
Fico com lágrimas nos olhos só de ouvir este CD. Gravado no antigo Palace em SP, este show foi o último de Cazuza antes de sua morte. Visceral, emotivo, debochado, o cantor, mesmo com dificuldades físicas, fez um tributo à vida no palco. Polygram, 1989.

Luiz Melodia Acústico ao Vivo
Desfilando a sua conhecida elegância, o Negro Gato esteve recentemente nas telas do cinema ao lado de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. E é com a mesma desenvoltura que aqui ele interpreta músicas como "Codinome beija-flor", de Cazuza. Um clássico! Universal, 1999.

Acústico Cássia Eller Atitude
transgressora escondendo uma timidez encantadora. Tive a grata oportunidade de conhecer Cássia Eller nos bastidores. E parece que até hoje consigo ouvi-la ensaiando "Todo amor que houver nesta vida". Universal, 2001.

Red Hot + Rio
Um elenco de primeiríssima linha entoa canções bossa-nova. Tudo em benefício da luta contra a AIDS. Uma boa dica para quem quer uma tarde romântica ao som de "Preciso dizer que te amo". Polygram, 1996.

Cirque du Soleil
Como o próprio nome diz, o Circo do Sol tem iluminado platéias do mundo todo com seus espetáculos idílicos, nos quais poesia e acrobacias se misturam, em meio a uma música vibrante e criativa resultante do intercâmbio de diversas culturas. Você não conhece os enredos? Não tem problema. Basta fechar os olhos e sentir as vibrações do taikô, o passeio dos violinos ou a cantoria indiana. O CD Alegria (BMG, 1997) é uma das produções de maior sucesso do grupo. Ouça também o CD Varekai (BMG, 2003).

"descobri in loco o que os musicoterapeutas indicam: música como amiga, parceira e confidente, como testemunha da minha história."

* Fred Itioka, 34, é produtor-executivo da TV Globo SP e fã incondicional de música de qualidade.

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