A ciranda do ciúme
INICIALMENTE, HÁ APENAS A MÃE E O FILHO e essa relação é a própria existência do prazer, da unidade. É uma compreensão recíproca não verbal, de olhar, de som, de movimento e contato que o ser humano busca durante toda sua vida. Pouco a pouco, o pai vai penetrando nesse universo e surge o terceiro elemento - aquele que sempre irá quebrar essa unidade - e nasce assim o ciúme. Isso é basicamente o que ocorre (ou deveria ocorrer a todo ser humano) na aurora das famílias. E o terceiro elemento será sempre aquele que dividiu, separou o objeto amado (a mãe) e esta dinâmica segue vida afora. Está formada a ciranda do ciúme e cada vez que a unidade se quebra, este surgirá automaticamente, por exemplo: no nascimento dos irmãos.
O ciúme faz parte da nossa história pessoal e ancestral e a melhor política para lidarmos com ele é aprender a dançar a sua ciranda na família, no colégio, no trabalho, etc., etc., enfim, nas relações. Todos nós temos uma família internalizada, inconsciente, e tendemos a projetá-la no mundo que nos cerca. Pais que têm consciência do seu próprio ciúme terão maior conhecimento dos sofrimentos que este causa a seus filhos e serão mais sábios ao lidar com o problema.
Algumas crianças nascem, não se sabe por que, com uma carga de ciúme muito grande, independentemente do lugar que ocupam na família. Discordo da célebre receitinha que diz que o filho do meio - o sanduíche - é o mais afetado pelo ciúme. Vamos mudar essa crendice examinando o que ocorre com os lados do sanduíche: o caçula, o mais velho ou ainda o filho único. Filhos caçulas, muitas vezes, tornam- se verdadeiros tiranos que, com suas regalias de mais moços, infernizam a vida dos irmãos, principalmente dos adolescentes. Também o mais velho, principalmente numa família mais patriarcal, alicia, por poder da vantagem de primogênito, o ciúme de todos, até de um dos pais. E as meninas então? Neste tipo de família elas nunca têm vez, "nunca podem!"
Pais que têm consciência do seu próprio ciúme terão maior conhecimento dos sofrimentos que este causa a seus filhos.
E o filho único? Ou é supermimado, dono do mundo, ou é a ciranda do ciúme superexigido; ele tem que dar certo! Estas crianças de excessos para mais ou para menos - não tanto a apagadinha do meio - tendem a desenvolver uma inquietante compulsão à competição. Elas têm que ser boas ou as primeiras em tudo, não aceitam seus erros, não conseguem perder ou trabalhar em grupo e levam esse comportamento para a vida profissional, para as amizades e para as parcerias amorosas (os vários casamentos). Ao terem filhos, vão perpetuar essa ciranda na nova família que se forma.
Já que o ciúme é inevitável, vamos mudar os lugares fixos que os filhos ocupam nessa ciranda. O caminho a seguir para se chegar a esse objetivo tem três passos: 1º) ampliar o autoconhecimento dos pais; 2º) estabelecer na família uma postura democrática em que todos os filhos têm os mesmos direitos; 3º) reconhecer que o ciúme faz parte da natureza humana e, saber lidar com ele é um caminho de sabedoria que nos ensina a dançar sua ciranda de forma criativa e feliz por aceitação da nossa precariedade humana.
* Carminha Levy é arteterapeuta, psicóloga junguiana, mestre xamânica, fundadora e presidente da Paz Géia, escola de xamanismo em São Paulo