
Brincar de viver
QUANDO ALGUÉM MUDA DE CIDADE e deixa sua família, seus amigos e suas referências a uma distância propícia para o cultivo da saudade, acaba buscando maneiras e situações que representam um tantinho de segurança. Isso pode significar ir a um restaurante de comida típica ou simplesmente cantarolar músicas que marcaram épocas, o que importa é a sensação de estar pisando em terreno conhecido e amigo. No meu caso, quando a saudade aperta forte eu vou até a Rua Augusta, no centro de São Paulo, e suspiro fundo. Posso andar tranqüila: estou em casa. Isso porque ela é minha. Sempre foi. Como? Ora, a Rua Augusta era a minha primeira aquisição nas partidas de Banco Imobiliário, o meu jogo preferido durante o período da infância e da adolescência.
"Foi certamente jogando que testamos nossos primeiros limites, exercitamos a tolerância, a compreensão, descobrimos a beleza do espírito de equipe." |
Não que outras possibilidades não tivessem sido testadas. Passei pela fase do dominó, das damas e do quebra- cabeça de mil peças. Depois vieram as bolas de gude, disputadíssimas em campeonatos no condomínio e assunto para deliciosas conversas táticas com meu pai, que jurava ter sido invicto por toda a vida e que, por isso, fora proibido de participar de novos campeonatos. E entre uma coisa e outra brincava de pega-varetas, até hoje o preferido das noites de verão, o jogo do mico, palavras cruzadas (dificílimo de jogar com a minha avó, que era mestre em inventar palavras e jurar que elas existiam) e o trio papel e caneta, sabe qual? Aquele composto pelo jogo-da-velha, stop (em que todos têm de escrever nomes de um carro, cidade e outras coisas com a letra definida) e forca, esses três não precisam de quase nada, além da vontade, para acontecerem.
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