O "DOCE PREDILETO" DE TODOS OS SERES, o afeto e as dificuldades que algumas pessoas têm de abrir o coração e deixar transbordar este rio caudaloso que se chama amor, é o nosso tema. No exercício do amor, o afeto corporal é aquele que primeiro acolhe o ser quando é aconchegado e nutrido pela mãe-símbolo universal de proteção e segurança. Os pais desta geração são privilegiados, pois se permitiram desabrochar o instinto maternal e ser os parceiros neste alicerce que vai fortalecer o ego corporal de sua criança.
Homens e mulheres que não tiveram este clima quando bebês, ou crianças que não receberam carinho e afeto, tendem a se tornar fechados, não só afetivamente, mas também intelectualmente. Meninos que recebem uma educação rígida e são educados para não chorar nem demonstrar seus medos ou inseguranças, pois estes sentimentos são vistos como "coisa de mulherzinha", tendem a se tornar homens com uma armadura anti-afeto, "heróis" que se protegem dos embates emocionais da vida moderna. Se eles tiverem a sorte de encontrar "uma donzela" carinhosa e amorosa que possa ajudar a ultrapassar esta armadura de confiança no outro e no mundo, começarão a mudar, a se abrir.
"Cuidar dos filhos é muito mais do que prover roupas, comida e boas escolas."
Eles, que precisam ser "homens de lata" para se defender dos afetos, lembram o herói do Mágico de Oz, que clama por um coração aberto. Nas mulheres o caso é muito mais grave. Como o amor materno necessita ser transmitido corporalmente (e o é instintivamente na maior parte das vezes), mães que têm esta armadura muitas vezes oriundas de violência de abuso sexual ou sevícias físicas na primeira infância, tornam-se "geladas" como defesa pelos sofrimentos infringidos. Para manter ainda um pouco de um ego intacto, elas se protegem praticamente saindo em espírito do corpo e congelam como que se anestesiando.
Os meninos que passaram por esta violência usam o mesmo mecanismo. Blindados, sofridos, cortam os laços afetivos com a vida e nas mulheres nem o milagre supremo da maternidade consegue a cura das seqüelas deste crime hediondo imperdoável. Nestes casos, a intervenção de um profissional qualificado faz-se necessária, pois o sofrimento é muito grande e generalizado, atingindo toda a família. A adulta "congelada" prejudica o vínculo afetivo mãe-filho pela falta do calor humano e é só na família que vamos encontrar o campo privilegiado para a cura do afeto e sua profilaxia. Analisem a dinâmica da sua família.
Vocês se curtem, se abraçam, acarinham, não se envergonham de usar palavras doces e de pedir desculpas após as brigas entre si? Não economizem elogios e carinhos e também programas pais-e-filhos, sem caretice e com muito bom humor e alegria. Não tenham receio de demonstrar afeto e carinho entre si, pois cuidar dos filhos, criá-los, é muito mais do que prover roupas, comida e boas escolas. Como pais temos deveres mais sutis que estes e que podem se traduzir em propiciar um lar com um clima amoroso e afetivo, no qual o respeito às diferenças seja sempre levado em conta.
O clima de confiança mútua por ser baseado no afeto (o qual também é manifestado por raiva e frustração, pois afeto é tudo que nos afeta), oferece principalmente a segurança a seus adolescentes que podem compartilhar com vocês sua grande prova iniciática que é, no caótico século XXI, ser mulheres e homens que vivem este desafiante, trepidante e único momento de vida em busca da sua Verdade.
* Carminha Levy é arteterapeuta, psicóloga junguiana, mestre xamânica, fundadora e presidente da Paz Géia, escola de xamanismo em São Paulo