
NESTE INÍCIO DE ANO, meu padrinho desencarnou e partiu para uma outra existência. A notícia de que seu estado de saúde era delicado e que a fraqueza física o atingira mexeu com toda a família. Eu, que havia perdido o contato com este núcleo, fiquei com a sensação de que era chegada a hora de me reaproximar das pessoas e de mim mesmo.
O encontro com meu tio - independentemente do caráter de despedida ao qual ambos tínhamos conhecimento - foi mágico. Esclarecedor. Mesmo com dificuldade e dor, ele profetizou palavras que me preencheram de luz. Nosso canal de comunicação foi intenso, caloroso. Sentado no chão para melhor observá-lo, tive uma outra visão daquele homem que fez parte de alguns dos momentos mais felizes dos meus anos de inocência. Agora ele estava cansado, sonhando em virar um retrato na parede.
"Quando se é criança, nossa vista é pura, cristalina e fotografar torna-se um curioso ato de liberdade e de feliz descoberta." |
Após segundos de estranhamento e reconhecimento, esqueci momentaneamente da triste condição que nos reuniu. Falamos do presente, brindamos o futuro e celebramos o passado, envolto em uma fina névoa prateada. Dela surgiram pequenos fragmentos de papel, registros
de uma época em que tudo era brincadeira. Eternidade: dias de sol, abraço do oceano, grão de areia. No meu coração, senti o mar revolto e as fotografias da minha infância colorida chegaram em ondas. Pulei uma, fiz um pedido à mãe Iemanjá, mergulhei em outra e embarquei no fundo. Da alma. Que tinha mil facetas bem-humoradas, com caretas e risadas. Quando se é criança, nossa vista é pura, cristalina e fotografar torna-se um curioso ato de liberdade e de feliz descoberta.
Longe da praia, dos imponentes castelos de areia e dos cuidados adultos, caminhei em direção ao mistério sem olhar para trás. Auto-afirmação? Meu rosto ardia. Na imensidão, queridos transformaram-se em desconhecidos, imagens ao acaso, pinturas desbotadas e seu lugar nada mais era do que o fundo de uma caixa de papelão marrom ao lado de retratos difusos.
"Para mim, fotografar era transgredir em quantidade, ver o óbvio, jamais o implícito, como diria o filósofo Roland Barthes." |
Para mim, fotografar era transgredir em quantidade, ver o óbvio, jamais o implícito, como diria o filósofo Roland Barthes. Adolescente, desaprendi a olhar. As cores eram exageradas. Novos enquadramentos da vida, ângulos nunca permitidos. Girei em um carrossel vermelho até que o suor inundou a consciência. Eu vi a vida melhor no futuro, por cima do muro de hipocrisia que insiste em nos rodear. Mas ele era alto e eu afundei.
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