FIDELIDADE NÃO LEVA NINGUÉM A GRANDES excursões ou à viagem dos seus sonhos, mas com certeza a confronta com um dos maiores desafios de sua vida: como decidir entre manter velhos laços, tão arraigados de amor e parceria, e o apelo da paixão inesperada e alimentadora do prazer de viver? Apesar de a fidelidade ser pesquisada por psicólogos, biólogos, antropólogos e sociólogos, não se chegou ainda a um consenso sobre o que ela é, como também não se sabe se o ser humano é monogâmico ou poligâmico.
Tal dificuldade é resultante do fato de ser a fidelidade um embate entre o racional e o instintivo, no qual raras vezes o primeiro vence. Até poucos anos atrás, ser fiel era só obrigatório para as mulheres. O homem tinha o direito adquirido de ter todos os casos amorosos que quisesse, sem contar a freqüência assídua aos bordéis e (nos casos mais abastados), ter sua "garçoniére" de luxo co-partilhada pelos amigos em grandes bacanais. Com o advento do movimento feminista que, na opinião de Gaiarsa, foi a maior e mais maravilhosa revolução que a humanidade já viveu, batendo de longe todas as outras, as mulheres, a duras penas, foram abrindo espaço no mundo dos homens, chegando nos dias de hoje a posições inimagináveis no tempo de nossas avós.
Mas a revolução feminista trouxe a fantasia de que tínhamos que competir com os homens, nos igualando a eles. Esta fase, praticamente superada no mercado de trabalho, na área sexual continua com uma disputa ombro a ombro, como se as mulheres quisessem recuperar o tempo perdido de submissão e se vingassem das traições com as mesmas armas. Haja vista o uso da internet como substituto das velhas "garçoniéres" e de como nós mulheres estamos assanhadinhas!
"O que os homens e mulheres querem da vida e do direito de usar sua sexualidade?"
O que os homens e as mulheres querem realmente da vida e do direito de usar sua sexualidade dignamente? Há dois caminhos básicos que vão demandar grandes desafios: um é o chamado da natureza para aventuras extraconjugais, que faz a vida renovar com muitas brincadeiras, muita alegria, muito riso pouco siso, a própria felicidade dos tempos de criança. O outro caminho não aumenta, como ocorre na paixão, nossos tóxicos internos - endorfina que nos traz saciedade e anfetaminas que elevam a sensação de exaltação vital. Mas esse desafio representa a maior prova afetiva que um homem ou uma mulher possam enfrentar para manter uma relação de lealdade que renove a cada dia as promessas iniciais de um amor de felicidade crescente.
Cultivando dia-a-dia, através da ampliação de horizontes e de consciência, o que irá multiplicar as possibilidades de interesses nos quais as palavras dever (por obrigação) e culpa serão eliminadas. Esse crescimento mútuo, essa conquista, só é válida se for regida pelo amor e não por convenções sociais ou religiosas. Como base temos a fidelidade própria - ser fiel a você, sua bússola, seu norte, que vai lhe levar a seu porto de chegada. Essa fidelidade lhe fará avaliar se esta nova paixão é sua razão de viver, seu destino, ou se manter os laços conjugais é sua verdade. Em ambos os casos, o respeito para com o parceiro deve ser preservado. Lealdade, tolerância e perdão garantirão um desfecho respeitoso, no qual a dignidade dos três envolvidos manterá inteiro o coração despedaçado do excluído.
* Carminha Levy é arteterapeuta, psicóloga junguiana, mestre xamânica, fundadora e presidente da Paz Géia, escola de xamanismo em São Paulo