Estilo Natural
Edição 32 - Maio/2006
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POR CARMINHA LEVY*

FOTO: MANOEL MARQUEScuidar do ser

O SENTIMENTO QUE MAIS se aproxima do êxtase religioso é o amor que inunda o coração da mulher quando ela pare e recebe o novo Ser nos braços. Mais uma vez, o milagre da criação se repete e, nesse momento, a mãe é deus e deusa.

Essa concepção arquetípica, comum a toda humanidade, é que traz o sagrado da maternidade. O velho conceito de que ser mãe é padecer no paraíso cai por terra quando mudamos esse patriarcal enfoque para o do privilégio de cuidar do Ser.

Cuidar do Ser implica uma maternidade consciente, que se inicia no momento de uma concepção responsável, num ato de amor, e se consolida com a conscientização da certeza de que o novo Ser não pertence aos pais. Num exercício de desapego, ele será criado e nutrido, do ponto de vista físico e psicológico, exclusivamente pelos pais. Filhos e filhas são o nosso maior bem, o maior investimento, do qual não temos jamais nenhum direito de posse.

Que estas palavras possam ser internalizadas nos vossos corações de mãe e pai. O Ser nasce e a cada dia nosso coração se alegra com um sorriso, o primeiro dentinho, quando nos reconhece pela primeira vez, seus primeiros passos, que são a primeira tentativa de se posicionar num mundo além dos braços protetores da mãe. A emoção do primeiro dia de aula, a primeira leitura, que lhe garante a ampla comunicação futura com o mundo que se abre, tudo isso por si só é a própria poesia do viver. Isto sim é viver no paraíso! Criar um Ser é acompanhar o surgimento de uma obra de arte, que deveria ser sempre a quatro mãos, o que nem sempre ocorre, desde os mais abastados aos mais desvalidos.

Minha homenagem no Dia das Mães é para essas mulheres que são mães-pais, pobres ou ricas, e que, sozinhas, criam seus filhos com uma força invisível de guerreiras. As mais pobres são responsáveis por cuidar do ser e, ao mesmo tempo, fazerem papel de provedoras, que saem à caça para trazer para o lar a subsistência do dia-a-dia. Dividem-se entre creches muitas vezes inexistentes e um ou dois trabalhos informais, contando com a vizinha ou tendo que largar filhos e filhas trancados em casa. Lutam com as filas dos hospitais, que vergonhosamente não oferecem a condição mínima de atendimento, e - o mais terrível - contra a sedução da vida fácil do mundo das drogas, o ouro dos tolos que ceifa prematuramente vidas inocentes, deixando a alma das mães despedaçadas. Mas mesmo assim essas mulheres heroicamente sobrevivem, e sempre com a esperança de dias melhores.

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