SABE-SE LÁ POR QUE, minha relação com eletrônicos nunca foi fácil. Jamais achei graça em videogame, nunca consegui gravar programas no vídeo e só há bem pouco tempo aprendi - por pura necessidade - a mexer no DVD. Esses aparelhinhos nunca exerceram o menor fascínio em mim e desde adolescente passei a exibir um certo orgulho disso. Sabe o gênero "adoro não fazer o que todo mundo faz"? Era este. Até que, aos 14 anos, "informática" passou a ser matéria obrigatória na minha escola.
Reclamando, lá fui eu para a primeira aula. Enquanto eu aprendia a ligar a geringonça, escutava o professor falar de uma certa rede de computadores. A tal Internet - sim, eu já ouvira falar -, mas que graça isso tinha? Aprendi que ela havia sido inventada para que o exército americano pudesse se comunicar, depois, passou a ser uma maneira de contato entre universidades e só então se popularizou, diminuiu as distâncias e transformou o verbo "navegar" em muito mais do que estar em alto mar. A Internet era a revolução do meu tempo, oferecia desde conversas até informações sobre outras culturas, imagens do planeta inteiro e pasmem: um jeito de escrever e enviar cartas que seriam recebidas segundos depois de enviadas, mesmo que meu destinatário estivesse no Japão. "Faz-me rir", disse minha avó, quando contei a novidade na hora do almoço, dando um minucioso relato sobre a notícia, escrito, xerocado e entregue para toda a família. Aquele documento era, na verdade, uma série de argumentações para que meu presente de 15 anos (a grande data das mocinhas) fosse não uma festa, nem uma viagem à Disney mas, sim, um computador. Depois de tensas negociações, que incluíam abrir mão do presente de Natal e dar aulas para minha irmã e primos menores, a ousadia deu certo. Em outubro daquele ano, lá estava eu com um computador instalado no quarto, bem em cima da penteadeira.
" Uso a tal rede todos os dias, seja para falar via webcam, enviar textos, fazer compras ou descobrir se vai chover no fim-de-semana"
Aos poucos, além de já saber ligar sem ler o manual, também sabia procurar qualquer coisa que fosse interessante. Descobri os santos sites de busca e com eles as possibilidades de fazer coisas como ouvir sons de santo- daime, ver fotos das primeiras feministas do Brasil e até imagens em tempo real de ações do Greenpeace, meus ídolos daquela época. Conheci os programas de mensagens instantâneas e outras ferramentas básicas que permitiam conversas que faziam até com que eu treinasse o inglês e o espanhol. Confesso que de antitecnológica virei uma fã fervorosa da máquina.
Mas nem tudo eram flores ou bytes, se você me permite o trocadilho quase infame. A conexão era lenta, o telefone ocupado era motivo para briguinhas constantes com a minha mãe e claro que eu não havia cumprido a promessa de dar aulas para "os menores". Forçada a diminuir o ritmo da navegação, concentrei-me em fazer algo que pudesse engrandecer meu tempo off-line. Assim, escrevi meus primeiros contos e artigos e descobri que poderia contar histórias verdadeiras, ou quase, usando as palavras. O resultado você imagina, decidi apaixonadamente pela escrita e a profissão de jornalista. Hoje, ainda tenho uma certa implicância com os tais eletrônicos, mas tirei o computador e a Internet desta lista. Uso a tal rede todos os dias, seja para falar via webcam, enviar textos como este, fazer compras, descobrir se vai chover ou não no fim-de-semana ou até dar uma espiada na previsão do meu signo para aquele dia. Afinal, navegar é preciso, já disse o poeta querido, quando mesmo? Corre ali no site de busca e descobre. Depois me conta. Páginas de pesquisa são as primeiras da minha lista. Entre um texto e outro, apareço por lá para me informar, aprender, admirar ou simplesmente sorrir.
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